Tekeli-li! Deleuze nas Montanhas da Loucura (Parte 1)

H. P. Lovecraft

Howard Phillips Lovecraft tem estado em alta em nossa época, desde referências diretas à sua obra, inspirações como diversos vilões ou criaturas do “horror cósmico” comum a todos às suas histórias. Com diversas adaptações de seus histórias na forma de filmes, jogos e até mesmo desenhos animados, de ficção científica até filmes de terror com criaturas com tentáculos, ele é um autor chave para iniciar as discussões do blog. Umas das características que estimulam a análise filosófica de seus contos é a temática de seus contos, indo mais além do terror “filme trash” presente em algumas adaptações de suas histórias; Elas possuem descrições de mundos fantásticos, geometrias não euclidianas, realidades oníricas e inumanas, além da discussão fundamental sobre a própria humanidade e seu lugar no universo.

Penso a literatura fantástica como um grande campo de experimentos para a filosofia e para a ciência, sendo talvez a chave para um campo verdadeiramente transdisciplinar, indo além das divisões arbitrárias e restritas das áreas do conhecimento. Elevando o pensamento além dos limites do senso comum surge a ousadia de especular, como no caso da ficção científica, uma ciência sem a limitação da visão de mundo restrita a modelos. Nestes estranhos universos, o homem sente estranheza e medo ao se deparar com o desconhecido, longe dos confortos de uma realidade percebida como segura e previsível.

Gilles Deleuze

Esta perspectiva tem muito em comum com um autor que acho brilhante desde que comecei a estudar filosofia: Gilles Deleuze. Ele é o filósofo francês responsável, com outros “comparsas” como Michel Foucault, John Searle, Friedrich Kittler e Alexander Galloway, em me atrair para o ramo das ciências humanas, tirando minha pesquisa do relativamente confortável e plácido mundo das ciências exatas e da computação. Sua obra possui diversos questionamentos em relação à ciência, principalmente uma crítica filosófica às suas pretensões em ser uma verdade absoluta. David Lapoujade, em sua obra “Deleuze e os Movimentos Aberrantes”, descreve o projeto filosófico deleuziano como uma busca incessante em questionar até a exaustão todo e qualquer fundamento, de modo a fazê-lo se dissolver em um “sem fundo”, um caos absoluto onde podemos vislumbrar lógicas e movimentos aberrantes. O leitor pode perceber como o projeto filosófico de Deleuze parece ressoar com uma das mais famosas frases de Lovecraft, décadas antes:

“Não está morto o que eternamente jaz inanimado, e em estranhas realidades até a morte pode morrer.”

H.P. Lovecraft

Iniciarei no blog uma discussão filosófica sobre uma das minhas histórias favoritas de Lovecraft: “Nas Montanhas da Loucura” (At the Mountains of Madness). Publicado originalmente em 1936 na revista Astounding Tales of Super-science, seu manuscrito sofreu várias alterações e edições por parte da equipe da revista, esta sempre irritou Lovecraft e levaram à uma publicação integral da história original apenas em 1986. Ela é uma história exemplar em questionar os limites da ciência, a realidade múltipla da existência e as pretensões do homem em sua busca pelo conhecimento e domínio da natureza.

Ramos Malditos

Dois ramos malditos nas áreas de pesquisa: Ficção Científica e Jogos digitais. A primeira é vista como uma literatura de segunda classe, de revistais para crianças e adolescentes, longe dos trabalhos de um Hemingway ou de um Machado de Assis. O segundo, é visto como mera diversão, com o torcer de nariz semelhante ao nado sincronizado, só que dos acadêmicos e dos “intelectuais”.

As abordagens acadêmicas para os dois, muitas vezes, beiram o absurdo. A Gamificação e os “Jogos Sérios” (Serious Games) formam apenas ferramentas para reduzir a diversão e a espontaneidade de uma atividade e transformá-la em uma fonte de renda, seja por conhecimento, padrões do usuário ou adestramento (“treinamento lúdico”, “se divirta trabalhando”, etc.). Querem saber o problema disso? Perguntem para um jogador de xadrez profissional se o seu jogo é sério ou não e tentem adivinhar a resposta.

Segundo Johan Huizinga, em sua obra clássica Homo Ludens, o jogo sempre é uma atividade voluntária. Se for forçado, deixa de ser jogo e vira uma imitação falsa. Todo jogo é sério, no sentido de que seu “faz-de-conta” não implica em não possuir seriedade, como uma espécie de realidade paralela que cada jogador se insere, com seu próprio tempo e espaço. O autor finaliza como uma bela frase para reflexão: “O contraste entre jogo e seriedade é sempre fluido. O jogo se torna seriedade e a seriedade, jogo”. 

O problema reside na sociedade enxergar a relevância destas duas formas de arte e literatura, ambas formas de “jogo” com o imaginário, muito mais que simples “mídias”. Dos dois, me parece que a ficção científica possui uma aceitação um pouco maior, porém bastante inócua, beirando a mesma visão que as pessoas tem sobre a mitologia antiga. Um exemplo claro é a trilogia Fundação de Isaac Asimov já foi citada como inspiração para a carreira de vários economistas e Neuromancer, o romance que funda o estilo cyberpunk, elevou William Gibson a uma espécie de “profeta tecnológico”. No entanto, são exceções e sempre fazem referência às obras literárias como uma mera inspiração ou descoberta de vocação para uma área.

Mais grave ainda, em nossa época, é o fato que tanto a literatura fantástica (incluo a ficção científica) quanto os jogos digitais são elementos formadores de nossa realidade atual. Desde a forma como aspiramos por um futuro tecnológico com novos gadgets, até nossa maneira de pensar numericamente em ganhos e perdas, como no mercado de criptomoedas. Melhor exemplo de Serious Game que este, impossível.

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